2020/06/01

Investir para a próxima geração | O compromisso da UE

Joana de Sá aborda o instrumento de recuperação Next Generation EU, que estará integrado num orçamento de longo prazo da União Europeia.

Nos últimos meses, cidadãos e instituições, da Europa e do Mundo, foram colocados à prova e diante de um desafio que não encontra par desde a criação da União Europeia [EU]. Vimos postos à prova: i) sistemas de saúde e de segurança social; ii) estruturas de governação; e, até mesmo, iii) questionada a força e motivação da União. Num momento, que se espera seja o da descida da curva que desenhou percurso pandémico motivado pela COVID-19, importa analisar o passado mas, primordialmente, traçar o futuro.

Para proteger vidas e meios de subsistência, reparar o mercado único, bem como para assegurar uma recuperação duradoura e próspera, a Comissão Europeia, por proposta de 27 de maio de 2020, veio recomendar que se faça uso efetivo de todo o potencial do orçamento da UE. O Next Generation EU, de 750 mil milhões de euros, bem como reforços orientados para o orçamento de longo prazo da UE para 2021-2027, elevarão o total do poder financeiro do orçamento da UE para 1,85 biliões de euros.

Este instrumento de recuperação, Next Generation EU, estará integrado num orçamento de longo prazo da UE que se anuncia como robusto, moderno e renovado. Complementando os esforços nacionais, o orçamento da UE será essencial para estimular uma recuperação socioeconómica justa, reparar e revitalizar o mercado único, garantir condições de concorrência equitativas e apoiar os investimentos urgentes, nomeadamente as transições ecológica e digital, que constituem a chave da futura prosperidade e resiliência da Europa.

Os fundos recolhidos para o Next Generation EU serão investidos em três pilares:

1. Apoio aos Estados-membros com investimentos e reformas

  • Um novo Mecanismo de Recuperação e Resiliência de 560 mil milhões de euros permitirá conceder apoio financeiro a investimentos e reformas, incluindo no que respeita às transições ecológica e digital e à resiliência das economias nacionais, interligando-as com as prioridades da UE. Este mecanismo será integrado no Semestre Europeu. Será dotado de um mecanismo de subvenções no valor máximo de 310 mil milhões de euros e poderá conceder até 250 mil milhões de euros em empréstimos. O apoio será disponibilizado a todos os Estados-Membros mas concentrar-se-á nos mais afetados e onde as necessidades de resiliência mais se fazem sentir.
  • Ao abrigo da nova Iniciativa REACT-EU, conceder-se-ão, até 2022, 55 mil milhões de euros adicionais dos atuais programas da política de coesão, com base na gravidade dos efeitos socioeconómicos da crise, incluindo o nível de desemprego dos jovens e a prosperidade relativa dos Estados-Membros.
  • A proposta de reforçar o Fundo para uma Transição Justa com 40 mil milhões de euros ajudará os Estados-Membros a acelerar a transição para a neutralidade climática.
  • O Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural beneficiará de um reforço de 15 mil milhões de euros para ajudar as zonas rurais a efetuar as alterações estruturais necessárias, em consonância com o Pacto Ecológico Europeu, e a alcançar os objetivos ambiciosos ligados à Estratégia de Biodiversidade e à Estratégia Do Prado ao Prato, recentemente apresentadas.


2. Relançar a economia da UE através dos incentivos aos investimentos privados

  • Um novo Instrumento de Apoio à Solvabilidade mobilizará recursos privados para apoiar urgentemente empresas europeias viáveis nos setores, regiões e países mais afetados. Poderá estar operacional a partir de 2020 e terá um orçamento de 31 mil milhões de euros, com o objetivo de desbloquear 300 mil milhões de euros de apoio à solvabilidade das empresas de todos os setores e de as preparar para um futuro mais limpo, digital e resiliente.
  • Melhorar o InvestEU, o emblemático programa de investimento da Europa, afetando-lhe 15,3 mil milhões de euros para mobilizar o investimento privado em projetos em toda a União Europeia.
  • Um novo Mecanismo de Investimento Estratégico integrado no InvestEU para gerar investimentos até 150 mil milhões de euros para estimular a resiliência em setores estratégicos, nomeadamente os que estão ligados à transição ecológica e digital, e as cadeias de valor fulcrais no mercado interno, graças a uma contribuição de 15 mil milhões de euros do Next Generation EU.


3. Abordar as lições da crise

  • Um novo programa de saúde, o EU4Health, para reforçar a segurança sanitária e prever futuras crises sanitárias, com um orçamento de 9,4 mil milhões de euros.
  • Um estímulo de 2 mil milhões de euros do Mecanismo de Proteção Civil da União – rescEU, que será alargado e reforçado para permitir à União prever e dar resposta a futuras crises.
  • Um montante de 94,4 mil milhões de euros para o Horizonte Europa, que será reforçado para financiar investigação vital no domínio da saúde, da resiliência e das transições ecológica e digital.
  • O apoio aos parceiros globais da Europa será reforçado pela afetação de 16,5 mil milhões de euros adicionais à ação externa, incluindo a ajuda humanitária.
  • Reforçar-se-ão outros programas da UE para alinhar plenamente o futuro quadro financeiro com as necessidades de recuperação e as prioridades estratégicas. Serão igualmente reforçados outros instrumentos especiais para tornar o orçamento da UE mais flexível e conferir-lhe maior capacidade de resposta.

Na ótica da Comissão Europeia, relançar a economia não significa regressar ao statu quo anterior à crise pandemica, mas seguir em frente. É nessa senda que a proposta daquela Comissão de 27 de maio de 2020, vai no sentido de que todos os montantes obtidos através do Next Generation EU sejam canalizados por programas da UE no orçamento de longo prazo da UE renovado:

O Pacto Ecológico Europeu, enquanto estratégia de recuperação da UE:

  • Uma grande vaga de renovação das estruturas e uma economia mais circular, criando empregos locais;
  • Implantar projetos de energias renováveis, nomeadamente de energia eólica e solar, e lançar uma economia do hidrogénio limpa na Europa;
  • Transportes e logística mais limpos, incluindo a instalação de um milhão de pontos de carregamento para veículos elétricos e a promoção das viagens ferroviárias, bem como uma mobilidade limpa nas nossas cidades e regiões;
  • O reforço do Fundo para uma Transição Justa para apoiar a requalificação, ajudando as empresas a criar novas oportunidades económicas.


Reforçar o mercado único e adaptá-lo à era digital:

  • Investir em mais e melhor conectividade, em especial na rápida implantação de redes 5G;
  • Assegurar uma presença industrial e tecnológica mais forte em setores estratégicos, incluindo a inteligência artificial, a cibersegurança, a supercomputação e a computação em nuvem.
  • Construir uma verdadeira economia dos dados para estimular a inovação e a criação de emprego;
  • Aumentar a ciber-resiliência.


Uma recuperação justa e inclusiva para todos:

  • O sistema europeu de resseguro de desemprego, a curto prazo, disponibilizará 100 mil milhões de euros para apoiar os trabalhadores e as empresas;
  • Uma Agenda de Competências para a Europa e um Plano de Ação para a Educação Digital garantirão competências digitais a todos os cidadãos da UE;
  • Salários mínimos justos e medidas vinculativas em matéria de transparência salarial ajudarão os trabalhadores vulneráveis, nomeadamente as mulheres;
  • A Comissão Europeia está a intensificar a luta contra a evasão fiscal, o que ajudará os Estados-Membros a gerar receitas.


Adicionalmente, propõe a Comissão o reforço da autonomia estratégica de Europa numa série de domínios específicos, incluindo as cadeias de valor estratégicas e a análise dos investimentos diretos estrangeiros. Para aumentar o nível de preparação para situações de crise e a gestão das mesmas, a Comissão deu também nota da sua intenção de apoio à Agência Europeia de Medicamentos e reforço do papel do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) na coordenação de respostas médicas num contexto de crise.

Joana de Sá | Sócia | joana.sa@pra.pt